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fuga #4 1960

Passado o chamado "período de observação" passámos a ter recreio em coletivo e as refeições passaram também a ser colectivas. No recreio era proibido conversar em voz baixa e no refeitório era simplesmente proibido falar no decorrer das refeições.
Mesmo nestas condições começámos a organizar o trabalho partidário, tendo sido dada toda a prioridade ao estudo das possibilidades de fuga.
Nunca me conformei com a ideia de que haja alguma prisão absolutamente invulnerável. Passámos a estudar com atenção todas as hipóteses, os riscos e o grau de possibilidades de tal ou tal hipótese. As nossas dificuldades eram acrescidas pelo facto de em qualquer caso excluirmos actos de violência que pudessem conduzir à perda de vidas. Antes, procurar explorar qualquer possibilidade de colaboração, aliciamento ou "distração" da parte dos guardas.
Formámos um organismo restrito, constituído por Álvaro Cunhal, Joaquim Gomes e eu próprio, com a incumbência exclusiva de estudar sistematicamente todas as hipóteses de fuga. Mesmo com as dificuldades de comunicação existentes, reuníamos todos os dias.


Numa dada altura, por meados de 1959, o camarada Joaquim Gomes conseguiu meter conversa, através das grades da janela da sua cela, com o guarda da GNR que fazia ali serviço e que viria a ser a chave mestra da fuga, o soldado Jorge Alves. Dessa conversa pôde concluir-se estarmos perante uma pessoa revoltada, como havia muitas, por razões puramente profissionais que se extravasavam de forma vaga para o plano político. Percebeu-se que o homem se considerava prejudicado na sua carreira profissional, pois, segundo ele, já deveria ter sido promovido a um posto superior, "talvez já devesse ser sargento". Escusado será dizer que o camarada Joaquim Gomes apoiou a sua revolta procurando conduzi-la para o plano político. Tudo isto em conversas muito rápidas e soltas nos períodos em que o soldado da GNR estava de serviço. O regulamento de serviço proibia lhes terminantemente conversar ou alimentar qualquer conversa com os presos políticos. O certo é que a conversa foi evoluindo e nas vezes que o guarda Jorge Alves passou por aquele serviço de "diligência" em Peniche a situação ficou suficientemente amadurecida para, por via partidária, o "cerco político" passar a fazer-se no exterior.
Deve insistir-se no melindre destes contactos unia vez que este homem não tinha nenhum esclarecimento político. O que eventualmente o podia levar a colaborar nos nossos propósitos era o sentimento de revolta e algum interesse material. No tratamento destas questões com a direção do partido no exterior, tudo era tratado literalmente em cifra escrita em papel de mortalha, mais facilmente "passável" pelas malhas da vigilância dos carcereiros. Em virtude dum comportamento calculado, na relação com os carcereiros, havíamos conquistado nesse período uma série de "regalias" no dia-a-dia prisional. Tínhamos jornais que circulavam livremente de cela em cela, passámos a ter acesso ao refeitório à tarde, com hora de leitura suplementar. Podíamos praticar jogos de xadrez e damas e, a partir de certa altura, foi mesmo autorizada a audição de discos, num gira-discos vindo do exterior e montado no refeitório. Esta situação aumentou as nossas possibilidades de contacto de uns com os outros.


Nos últimos dois meses de 1959, o plano de fuga avançou rapidamente na sua concretização graças ao trabalho desenvolvido no exterior pelo Secretariado do Comité Central, constituído então por Octávio Pato, Joaquim Pires Jorge e António Dias Lourenço. O guarda da GNR, Jorge Alves, foi definitivamente ganho para nos ajudar na fuga, ainda que com muitas hesitações e receios e na condição de o colocarmos no estrangeiro após a fuga, assim como duma certa quantia em dinheiro para sustentar os familiares, enquanto estes não se juntassem a ele.
Como a próxima "diligência" em Peniche da companhia da GNR a que o Jorge Alves pertencia estava marcada para o mês de Janeiro de 1960, tudo foi combinado, por proposta dele, para o dia 10. Subitamente, por razões não explicadas, já no dia 1, ele antecipou a acção para o dia 3 de Janeiro.

De fora deveriam chegar ate nos dois sinais distintos, confirmando que no exterior tudo estava preparado para a nossa retirada em segurança, a partir de locais da vila de Peniche previamente combinados, para a recolha dos grupos por nós definidos.
Um dos sinais, o primeiro, deveria ser-nos dado através das visitas, logo a seguir ao almoço. Este sinal, por dificuldades surgidas nos encontros no exterior, falhou, não foi dado.
O segundo sinal consistia no aparecimento no largo fronteiro as celas do lado Norte, de um carro com a tampa dos porta-bagagens levantado, o qual, após percorrer alguns metros bem à vista de nós, parava e o seu condutor saí calmamente do automóvel e fechava a tampa do porta-bagagens.
Este sinal concretizou-se.  À hora combinada, o carro, conduzido pelo militante comunista e conhecido actor teatral Rogério Paulo, realizou com perfeição esta manobra.
No interior da cadeia,  ficámos algo perturbados com a falta do primeiro sinal. Estabeleceu-se alguma discussão sobre se a fuga deveria ir para diante com tais condições. Houve quem levantasse dúvidas, e eu fui um deles, quanto a lançarmo-nos numa ação de tão grande responsabilidade face à ausência do sinal de avançar vindo do exterior. Foi decidido fazer-se uma rápida auscultação entre os camaradas envolvidos na fuga, tendo¬se optado maioritariamente pela decisão de ir para a frente.
Quando surgiu o segundo sinal já tudo estava decidido quanto à concretização da fuga.

A partir desse momento desencadeou-se toda a preparação dos preparativos "irreversíveis" — rasgar lençóis em tiras e uni-los com nos sólidos previamente estudados, fazendo ainda mais dois nós em cada tira de modo a reforçar a "corda" assim formada e a facilitar a segurança da descida.
Os camaradas que ficaram responsáveis por esse trabalho utilizaram os seus próprios lençóis. Na hora H seriam todos juntos e entregues ao Francisco Miguel. que se encarregou da ligação das partes com uns nós especiais, a pescador, em que ele se especializara.
As ampolas com o clorofórmio para neutralizar o guarda prisional encontravam-se também já em nosso poder.
Após a hora do jantar, que foi assistido nesse dia pelo guarda Serrado, cerca das 19 horas, desencadeou-se a "operação". O sinal de partida foi dado, sem o saber, pelo próprio guarda ao apitar para nos levantarmos após a refeição.
No corredor e a saída do refeitório formou-se um "cortejo" de camaradas de modo a envolver o guarda, distraindo-o sobre qualquer sinal de nervosismo que eventualmente se manifestasse da nossa parte.


Deve lembrar-se que todos os presos desse 3.° piso estavam a par, de um modo geral, sobre o que se preparava. Todos foram informados e consultados previamente quanto à disposição ou interesse em participar na fuga, de tal modo que com alguma antecedência se soubesse quem ia fugir e quem ficava.
O critério que presidiu a esta selecção partiu do princípio de que quem fugia da cadeia era para continuar luta na clandestinidade, logo foram seleccionados todos os que estavam nessa disposição.
Assim, fugiram: Alvaro Cunhal, Jaime Serra, Joaquim Gomes, Carlos Costa, Francisco Miguel, Pedro Soares,  Guilherme da Costa Carvalho, Rogério de Carvalho. José Carlos e Francisco Martins Rodrigues.
Ficaram na Cadeia, por opção própria ou por não se enquadrarem no critério atrás referido, Borges Coelho, Humberto Lopes, Manuel Andrade e António Rego. Estes, embora não fugindo, deram à execução da fuga todo o apoio que puderam.
O processamento da fuga foi muito rápido porque todos os passos estavam cronometrados com rigor e cada um sabia o que tinha a fazer, incluindo a ordem de saída.

No momento previsto e como estava combinado entre nós, o guarda Serrado sentiu cerrado à volta do pescoço um laço feito com uma toalha, tendo ficado imobilizado quase instantâneamente. Esta tarefa foi realizada pelo camarada Guilherme de Carvalho, que dela Ioi incumbido por ter uma constituição física adequada para o efeito. O clorofórmio foi aplicado de imediato e foi-lhe metida na boca a pega metálica utilizada habitualmente nos hospitais para segurar a língua de modo a evitar que o paciente fique asfixiado.
Como se esperava, o guarda nem “piou”, tendo sido metido em estado inconsciente numa das celas que ficou vazia. Havia certa preocupação dado o facto de termos sido prevenidos que o clorofórmio é mais difícil de atuar sobre indivíduos alcoólicos. O guarda Serrado era um desses. Felizmente que ao efeito do clorofórmio se juntou o efeito do susto de tal modo forte que, segundo soubemos depois, quando o foram libertar cheirava mal...
Os camaradas que ficavam recolheram às suas celas, tendo eles próprios fechado as suas portas. No refeitório, o nosso gira-discos ficou a tocar uma bonita sinfonia, a Patética de Tchaikóvski...
A segunda fase da operação desenrolou-se no exterior do bloco prisional sob a responsabilidade do guarda Jorge Alves. Como estava previsto, juntamente com o camarada Alvaro Cunhal, constituímos o primeiro grupo a percorrer, sob a capa do guarda Jorge Alves, a distância que nos separava duma horta existente num terreno subjacente à muralha da Fortaleza por onde íamos descer.
Tendo alcançado o torreão da fortaleza, tratámos de amarrar solidamente a uma fresta desse torreão uma ponta da "corda" de tiras de lençol por onde descemos.


A partir daí tudo foi fácil. Saltámos o último obstáculo, o muro exterior do fosso e encontrámo-nos de imediato a atravessar o largo do jogo da bola misturados com os muitos populares que vinham de assistir ao jogo de futebol, discutindo em voz alta o seu resultado. Chegámos assim ao local de encontro previamente marcado, onde nos esperava um camarada conhecido, o médico Orlando Lindim Ramos, ao volante do seu carro. Ali aguardámos a chegada dos outros camaradas fugitivos que, segundo o combinado, deveriam participar connosco na retirada, entre eles o Joaquim Gomes e o guarda Jorge Alves.
Na descida verificaram-se dois acidentes: com o Guilherme da Costa Carvalho, que se feriu na face ao cair de uma certa altura, e com o Pedro Soares, que também caiu, ainda dentro da Fortaleza, ao saltar para uma horta, tendo torcido um pé.

A parte final da fuga, assim como a retirada, não decorreram exatamente como estava previsto, por dificuldades resultantes do comportamento do guarda Jorge Alves nessa fase final. Assustado pelo facto de ter sido confrontado com o aparecimento de um número de fugitivos superior ao que provavelmente lhe haviam dito, entrou em pânico e ia deitando tudo a perder. Valeu, na oportunidade, a serenidade e determinação dos camaradas que se confrontaram com essa situação, particularmente do camarada Joaquim Gomes.
Por este facto, o carro conduzido por Lindim Ramos transportou menos dois fugitivos do que estava previsto (Carlos Costa e Pedro Soares) e o outro carro, conduzido pelo camarada Carlos Plácido de Sousa, teve de transportar oito pessoas — sete fugitivos mais o condutor. Valeu a circunstância de se tratar de um grande carro americano que transportou toda aquela gente sem dificuldades embora, por uma questão de segurança, dois deles fossem deitados de modo a não serem vistos do exterior.

A despeito daqueles pequenos acidentes, concluiu-se com pleno êxito uma das mais audaciosas e espetaculares fugas de toda a longa história do regime fascista. Ela constituiu para os salazaristas uma profunda derrota, na mesma medida em que constituiu para o PCP uma extraordinária vitória política, ao recuperar para a luta uma dezena de destacados dirigentes do partido, incluindo aquele que viria ser o seu secretário-geral, o camarada Álvaro Cunhal. A repercussão nacional e internacional foi enorme, constituindo, além do mais, uma grande humilhação para o regime.

Jaime Serra

fuga #3 1954

Quando se deu o fracasso da descoberta do túnel da sala 4, por onde se deviam evadir camaradas, tornou¬se claro para todos que o nosso plano de fuga coletiva estava prejudicado, pelo menos por algum tempo. Mas esse facto não afectou muito o ânimo de alguns camaradas que persistiam em encontrar um caminho para a liberdade e continuar a luta. Vários projetos individuais foram surgindo, entre eles o velho sonho de fugir do segredo.


Era a tentação de todos os presos que por lá passavam. E foram muitos nesse tempo. Quem não pensou em encontrar maneira de sair daquele redondo, de noite, descendo das muralhas para o mar e daí alcançar terra firme?!...
Não era, aliás, uma façanha inédita: já no passado alguém conseguira evadir-se pela furna, que tinha uma abertura para a parada, com a ajuda de uma pequena bateira. Por isso os carcereiros tinham reforçado a segurança naquela zona para evitar novas fugas.
Alguns de nós tínhamos passado pelo "segredo" longos períodos e por várias vezes. Nos muitos dias que ali vivemos tivemos ocasião de imaginar e estudar todas as várias possibilidades de evasão. Como também observámos os diversos obstáculos que podiam levar ao seu fracasso.

O "segredo" consistia nuns pequenos cubículos com uma única porta de madeira, grossa e reforçada com algumas cintas metálicas. Mantinham-se permanentemente fechadas, com fechaduras e ferragens exteriores. O chão era cimentado. A vigilância permanente era feita por um guarda prisional a partir de um posto a cerca de 50 metros de distância. Duas sentinelas da GNR, de ângulos diferentes, vigiavam-no com intermitências.
O portão exterior do redondo mantinha-se sempre aberto, a área bem iluminada e o guarda tinha a recomendação de manter a porta do "segredo" sob vigia. A ronda passava de duas em duas horas: batia com as chaves ou chamava e esperava que respondêssemos.
A porta só se abria nas horas das refeições — de manha, ao café, ao almoço e ao jantar. Nas horas de abertura de manhã e de fecho à noite íamos às muralhas, acompanhados do guarda fazer despejos para o mar.
Qualquer tentativa de evasão comportava grandes riscos e o seu êxito dependia, em grande medida, de muita audácia, muita coragem e determinação e um bom sentido organizativo para levar à prática um plano bem arquitetado. E também era preciso alguma sorte...

Foi naturalmente um pequeno número de pessoas que estudaram o plano de fuga do «segredo». Nesse grupo estava o Dias Lourenço, seu grande entusiasta e principal personagem. Acabou por ser ele a ir parar ao "segredo" e a pôr em pratica o plano. Por várias razões mas também porque era, entre todos, o que melhor nadava. O grande perigo estava no mar...


Para sair do "segredo" o único meio era abrir um postigo na porta, de tamanho suficiente para passar um corpo. Para isso era necessário uma boa faca com bico bem afiado... e tempo. O tempo nunca foi problema para um preso, e quanto a faca o Dias Lourenço lá arranjou uma boa faca de sapateiro que conseguiu fazer passar consigo quando ingressou no "segredo", tarefa nada fácil porque os que entravam eram despidos em pelota e as roupas e objectos pessoais pesquisados com minúcia.
Para descer das muralhas até ao mar era necessário uma corda. As três mantas que nos distribuíam, rasgadas em tiras, podiam servir de corda. Lembra-me de uma pequena dúvida que se levantou na discussão deste pormenor: do alto das muralhas até ao mar seriam cerca de 16 metros medidos o que obrigava a uma corda resistente.
O outro risco era poder ser visto pelo guarda da porta em frente, ao sair pelo postigo. Também me recordo que foi lembrada a conveniência de aproveitar, se possível, o turno do guarda Samuel, um velhote inofensivo que às vezes até se metia nos copos.
Tudo foi previsto, inclusive o plano das marés de modo a fazer coincidir a fuga com uma baixa-mar...
Estávamos em tempo de repressão e não foi difícil Dias Lourenço apanhar inesperadamente alguns dias de castigo no "segredo". Não lhe foi imediatamente possível levar à prática a saída e ao fim de dez dias regressou à caserna coletiva.
Ao chegar disse-nos que o postigo estava praticamente cortado. Pressionando a faca com a mão conseguira fazer penetrar o bico até ao exterior. O postigo ficara preso apenas em poucos locais. Os cortes finais seriam dados na noite da fuga e colocaria o postigo no mesmo lugar para que o vigia, vendo o buraco na porta, não desse o alarme. Só na primeira contagem às cinco da manha a fuga seria descoberta.
Tudo em ordem, só faltava fazer os restantes preparativos...

Naquele dia nenhum de nós pensava que a intervenção do guarda Pôpa viesse apressar e colaborar nos planos da fuga... As circunstâncias contribuíram para muita gente pensar (mesmo os carcereiros) que aquela ida para o "segredo" foi provocada por nós ou pelo Dias Lourenço. Mas a verdade não é essa. De fato esperava-se o momento oportuno. E o momento oportuno foi o guarda Pôpa quem o precipitou.
O Dias Lourenço escrevia nesse dia urna mensagem para o Partido (era ele quem nessa altura tinha essa tarefa). Estava sentado na cama a um canto escondido da sala. O guarda Pôpa estava de serviço à nossa caserna e passava de um lado para outro, em frente das janelas, como um cão perdigueiro â procura da caça. Viu o Antonio recolhido no canto a escrever, desconfiou e decidiu atacar. Abriu repentinamente a porta e entrou na caserna. O Dias Lourenço dobrou negligentemente o papel e meteu-o na sua mala. Daí a pouco o Pôpa foi à mala, abriu a tampa, tirou o papel e ia desdobrá-lo para ler. O António, de surpresa, tirou-lho das mãos e meteu-o na boca. Envolveram-se em luta. Enquanto engolia o papel foi levado aos empurrões para fora da sala.
Lembra-me que naquela confusão o Dias Lourenço ainda teve tempo para me lançar um olhar significativo que eu interpretei como indicação de que ia aproveitar a oportunidade.

O tempo que se seguiu à sua ida para o "segredo" foi para todos nós tempo de preocupação e grande ansiedade. Esperávamos a todo o momento, de dia e de noite, uma qualquer indicação do que se teria passado. Teria conseguido sair pelo postigo? Como teria iludido a vigilância do guarda? Como teria conseguido a descida da nitiralha para o mar?
Era todo um mundo de interrogações que nos preocupavam. Sempre que um guarda se aproximava ou abria a porta da sala esperávamos poder observar qualquer indício que fosse uma resposta à nossa ansiedade.

O tempo de espera não foi muito.
Numa manhã seguinte dois guardas entraram na caserna e dirigiram-se para a minha cama. Pressenti imediatamente que tudo se tinha consumado — para o bem ou para o mal.
— Onde estão as coisas do senhor Dias Lourenço? — perguntaram, sem se dirigir particularmente a ninguém.
Todos os guardas sabiam onde ficava a cama do Dias Lourenço, por isso se encaminharam para o nosso canto. Eu e o Dias Lourenço sempre tivemos as nossas camas ao lado uma da outra, e as coisas mais importantes do Dias Lourenço já eu as tinha misturado com as minhas.
Os guardas pegaram em tudo que lhes foi indicado e foram levando. Insistimos para nos explicarem porquê. Não nos deram resposta. Mais tarde conseguimos saber que tinha havido fuga, mas não sabíamos se ela se tinha ou não consumado.
A nossa ansiedade aumentou quando, um ou dois dias depois, os carcereiros fizeram correr a notícia que o Dias Lourenço devia ter-se afogado porque algumas das suas roupas tinham sido recolhidas no mar.
Ficámos assim a saber que a fuga tinha sido um facto; que o Dias Lourenço não tinha sido preso à saída do "segredo"; e que tinha conseguido chegar ao mar. O aparecimento das roupas não nos preocupou muito: tínhamos uma explicação para isso. A nossa principal preocupação era saber se tinha conseguido chegar ao seu destino...

Joaquim Campino


Mais tarde soube-se que naquela noite, em que Dias Lourenço decidiu dar início à fase final e mais difícil da fuga, os dados estavam lançados para o certo ou para o torto.
Com as mantas fez a corda para descer para o mar e com a faca procedeu ao corte da parte da madeira que ainda sustentava o quadrado que abrira na porta a medida do seu corpo. Com todo o cuidado retirou o quadrado da madeira voltando a colocá-lo para escapar à observação da próxima ronda.


Ao descer as rochas, observou que o mar estava mais agitado do que havia previsto, com grande rebentação e ondas de respeito. Para complicar as coisas, a corda havia ficado mais curta do que a distancia a descer e por tudo isto entrou na água de forma descontrolada, tendo-se ferido e perdido logo, levada pelas ondas, a roupa que que tinha presa à cabeça.

Nadou durante bastante tempo tendo acabado por ir parar não à pequena praia que fica próximo da entrada da fortaleza, como pretendia, mas sim a uma zona bastante afastada, nas proximidades do local onde então funcionava a lota do peixe e onde havia a essa hora bastante movimento de pescadores e negociantes de peixe que o transportavam em camionetas de venda.

Foi aos tripulantes duma dessas camionetas que Dias Lourenço se dirigiu, pedindo boleia quando estes se aprontavam para partir com o peixe que haviam comprado.
Pediu boleia para o Bombarral depois de informado que era para esta terra que eles se dirigiam. Perante o seu aspeto, com barba de 15 dias e encharcado até aos ossos a resposta foi uma recusa terminante com o argumento de que excedia a tripulação de sete homens e que teriam de passar pelo controlo da polícia de trânsito à saída de Peniche.
Face a tal situação Dias Lourenço resolveu jogar tudo por tudo. Disse quem era, um preso político que acabava de se evadir da fortaleza e que se não lhe dessem boleia acabaria por voltar a ser preso. Perante tal dilema, revelando um grande sentimento antifascista a tripulação da camioneta, após uma rápida conferência entre eles, acederam ao seu pedido transportando-o, escondido entre eles, até ao Bombarral onde encontrou apoio numa casa de camaradas que já conhecia.

 Jaime Serra

fuga #2 1953

Alcançar a liberdade e voltar à luta era uma das maiores aspirações dos presos da caserna 5, onde me encontrava. A recordação de que fora dali que se evadiram os camaradas Jaime Serra e Francisco Miguel exercia sobre todos nós uma contagiante confiança de que também nós seríamos capazes de encontrar uma saída para a liberdade. Não necessariamente a mesma que os camaradas encontraram. Estava ainda muito fresco na memória dos carcereiros o processo utilizado — grades serradas, subir para o telhado e dali descer as muralhas para as rochas até chegar ao cais.


Assistíamos à rotina de todos os dias — os guardas nas rondas batiam com a chave nas grades da janela. Pelo som mais ou menos metálico podiam aperceber-se se alguma delas estava serrada ou começada a serrar.
Sabíamos que naquela caserna já em tempos se havia tentado a fuga furando a parede para o exterior. Fatos pendurados em cabides ao longo das paredes escondiam o buraco e as pedras e a caliça retiradas do buraco eram disfarçadas em embrulhos e colocadas nas prateleiras. A tentativa fora descoberta e agora os guardas sempre que entravam na caserna percorriam com o olhar as paredes e não permitiam um ou outro papel a cobri-las.
—Só há um caminho para sair daqui! — disse alguém certo dia.
—Qual?...
—O chão!...
A princípio a ideia não foi levada a sério. O chão era cimentado. Como era possível abrir caminho através do cimento?... E não apenas o cimento: havia também todas as possibilidades de uma vez furado o cimento se encontrar rocha. Onde encontrar os instrumentos para abrir caminho através da rocha?! Como dissimular o buraco durante as rusgas dos guardas? Como fazer desaparecer a terra ou as pedras que iríamos tirar do buraco?...
Cada um ficou a ruminar em todas estas dificuldades e aos poucos, à medida que os dias e as semanas iam passando, íamo-nos familiarizando com o projecto e cada um ia encontrando soluções possíveis para as dificuldades.
A capa do cimento podia não ser muito grossa... Mesmo que a caserna assentasse sobre rocha esta não é lisa e podia até haver urna galeria que nos levasse ao exterior, etc., etc.
—O mais difícil seria furar a muralha! — dizia um.
— As paredes da muralha não são feitas em cimento! — dizia o Lobão Vital, com a sua autoridade de arquiteto. Naquele tempo não havia cimento e as pedras eram presas com cal. É fácil desprender, pedra a pedra.
Podemos fazer entrar alguns escopros entalados nas tábuas de unia mala — sugeriu outro.
—O buraco pode ser feito debaixo de uma cama para não ser visto pelo guarda nas rondas!
—Não é boa solução — discordava alguém. — O mais seguro é fazer uma tampa de cimento!
— E o cimento? Só se pedíssemos ao Afonso (guarda de confiança)! — Não é arriscado?
Era um mundo de interrogações para o que foi necessário encontrar resposta.

A verdade é que passadas algumas semanas começámos a abrir um buraco debaixo da cama do Gabriel.
Foi montada vigilância na janela para suspender o trabalho logo que o guarda se aproximasse. Havia escopros e martelos. Foi marcado no chão um quadrado de pouco mais de 50 centímetros e começámos a abrir um poço. Quando a placa estava quase cortada foi feita uma tampa com o cimento que o Afonso nos trouxe da vila. A ferragem de uma cama serviu de estrutura metálica. Sempre que o trabalho era interrompido pela chegada da ronda a tampa era colocada a fechar o buraco. As fendas eram disfarçadas com miolo de pão amassado com pó de cimento.
Quando furámos o cimento alimentámos a esperança de avançar depressa porque apareceu terra. Mas a um metro de profundidade a rocha apareceu. Apesar disso ninguém falou em desistir.
Dia após dia íamos partindo pedra e retirando terra. Aos poucos era escoada no latão do lixo que todos os dias despejávamos ao mar, de cima das muralhas.


Um dia aconteceu o que ninguém tinha previsto.
Estávamos na hora da limpeza. Dois camaradas foram despejar o lixo acompanhados do guarda. De cima da muralha despejaram o latão corno era costume. Por cima deles, debruçado numa das ameias, a sentinela da Guarda Republicana observava e viu cair pedras à mistura com os papéis e outro lixo. O barulho de alguns pedregulhos ao cair na água chamou a sua atenção. Lá de cima gritou ao guarda:
Estão a despejar pedras!... Está a ouvir, senhor guarda?!
O guarda fingiu não ouvir mas os nossos camaradas vieram, alarmados, dar a notícia.
Precisávamos tomar medidas imediatas. O guarda foi¬se embora mas passado pouco tempo vimos chegar vários guardas que passaram uma revista à caserna batendo nas paredes.
Quando saíram tomámos uma iniciativa arriscada. Pedimos através do Gabriel, nosso chefe de caserna, que nos permitissem caiar as paredes.
Há muito que vínhamos pedindo para nos caiarem a caserna. Respondiam que a caiássemos nós. Os carcereiros ficaram agora surpreendidos e aceitaram imediatamente. Forneceram a cal e os pincéis e mandaram-nos pôr imediatamente as camas na rua.
Tínhamos calculado isso mesmo. À medida que íamos pondo as camas cá fora íamos também vasculhando o tecto com grandes vassouras. O pó branco que se desprendia das paredes ia caindo no chão cobrindo-o com unia camada branca uniforme. A mancha quadrada do cimento novo ficou assim disfarçada. Os guardas inspecionaram todos os cantos da caserna, acompanhados do chefe Vítor Ramos e do adjunto Bastos mas nada encontraram de suspeito. Ao fim do dia mandaram pôr as camas para dentro.

Alguns dias depois mandaram-nos pôr de novo as camas na rua e deram ordem para lavarmos a caserna. Enquanto colocávamos as camas na rua carregávamos os baldes e os esfregões para dentro e começámos a baldear.
Com toda a naturalidade um de nós encarregou-se de "defender" o quadrado, mantendo sempre em cima da mancha um balde e o esfregão. Mais uma vez houve revista com vários guardas e os seus chefes. Depois de darem por terminada a revista, o Afonso, que tinha ficado de serviço, entrou na caserna e perguntou a rir:
— Como é que fizeram o buraco que ninguém o vê?
Tinha os pés precisamente em cima dele.
—E quem é que te disse que há buraco? — retorqui-lhe eu.
—Então para que foi o cimento?
Como não lhe respondemos saiu a rir e não insistiu.
Passaram-se mais alguns dias e veio a ordem para mudarmos para a caserna 4. O buraco lá ficou tapado. A tampa ficou apoiada sobre uma armação de madeira.
Dali em diante a caserna 5 não recebeu mais nenhum preso. Foi ali instalado o refeitório da GNR.

A interrupção forçada da tentativa de fuga na sala 5 em vez de nos desanimar teve o efeito de despertar em todos nós uma ânsia incontida de alcançar a liberdade pelas nossas próprias mãos.
Ao entrarmos na caserna 4 íamos ainda sob a influência do plano que arquitetámos: fazer um túnel subterrâneo que nos levasse às muralhas. Reparámos, logo que entrámos, que o chão não era de cimento, mas em soalho. Era uma circunstância favorável. Na primeira oportunidade despregámos uma tábua e vimos com satisfação que por debaixo era terra solta sem vestígios de rocha.
Passados alguns dias um grupo restrito começou a estudar o plano. A caserna tinha bastantes pessoas e nem todos estariam interessados na fuga.
 Estariam, no entanto, todos dispostos a arriscar-se a ser coniventes? Não era possível manter em total segredo os preparativos de urna fuga numa caserna com tanta geme. Sobretudo uma fuga que exigia um trabalho coletivo.
A primeira tarefa foi, portanto, preparar as pessoas e ganhá-las para isso.
Fizemos uma discussão pormenorizada com todos os presos da caserna e todos estiveram de acordo em se iniciar os preparativos de fuga. Foi aceite voluntariamente o seguinte compromisso: ninguém falaria no assunto à família nas visitas. Para maior segurança alguém lembrou, e foi acordado, que a própria correspondência pessoal devia ser lida por um grupo escolhido para evitar qualquer referência, mesmo involuntária, que levasse os carcereiros (que censuravam as cartas) a aperceberem-se de que algo anormal se podia estar a passar. Um simples entusiasmo descontrolado podia ser perigoso. Que enquanto durassem os preparativos da fuga ninguém iria sozinho tratar qualquer assunto ao gabinete do chefe dos guardas ou ao diretor. Que no caso de fracasso todos se comprometiam a não fazer declarações fosse contra quem fosse, quer aos carcereiros, quer à PIDE, ou se negariam a falar ou, como limite, declaravam desconhecer quaisquer preparativos de fuga pessoal ou coletiva. A ligação com o exterior sobre este assunto seria apenas da responsabilidade do organismo que passaria a dirigir os preparativos da fuga.
Quando esta fase foi dada por concluída demos início ao trabalho.
Éramos dez os que estávamos preparados para fugir. A maioria era funcionários politicos do PCP, mas havia também não funcionários, entre os quais alguns camaradas chegados do Tarrafal, como o Fernando Vicente e o João Faria Borda.

 Naquele tempo a caserna 4 não tinha guarda permanente em frente das janelas. A vigilância era feita de vez em quando e havia, além disso, as rondas regulares e as formaturas de manhã e à noite, antes do silêncio. Estudadas todas as condições concluiu-se que a noite era a melhor altura de trabalhar na fuga. Mas para isso era indispensável montar um serviço de vigilância ao exterior a partir da janela, para dar o alarme, e de forma a que quando o guarda acendesse a luz e abrisse a porta tudo e todos estivessem em ordem e dentro das suas camas para serem contados.
Fizeram-se testes e concluiu-se que o tempo mínimo gasto pelo guarda, desde ser visto ate chegar à caserna, abrir a luz e a porta era de 23 segundos!... Isto em relação ao guarda mais rápido, o Serrado. Era este o tempo que tinha de servir de base para todos os cálculos.
Entre os camaradas que se dispunham a participar nos preparativos da fuga foram criados vários grupos de trabalho: um grupo que se encarregaria de fazer a vigilância do exterior. Outro grupo que trabalharia na perfuração do túnel. Outro ainda que se encarregaria de espalhar a terra saída do túnel por debaixo do sobrado. Finalmente, um grupo coordenador que tinha a responsabilidade de se manter junto da tampa aberta e daí dirigir todas as operações, desde a mudança dos turnos até ao receber o alarme, dar ordem de saída do túnel e fechar a tampa.

Todos fizemos um período de treino e adaptação às nossas tarefas, a começar pelos vigilantes do exterior que tiveram de estudar o local exato onde se deviam colocar na janela, de forma a encobrirem-se dentro da sombra da ombreira e não se deixarem ver, nem pelo guarda, quando assumisse à esquina, nem pelo GNR que fazia a vigilância nas ameias das muralhas da Fortaleza, mesmo por cima da nossa caserna
Uma corda seria estendida por debaixo das camas ligando o vigilante da janela aos camaradas que estavam junto da tampa. Ao avistar o guarda, o vigilante daria um esticão, sinal que era recebido na boca do túnel por alguém que mantinha permanentemente a corda esticada na mão. Recebido o alarme o camarada transmitia o alarme imediatamente com outro puxão noutra corda que estava presa a um pé do "mineiro". Este saía rápido, soltaria a corda do pé (presa com uma liga elástica) e metia-se na cama. Os camaradas de serviço junto da tampa teriam de ter a corda recolhida, a tampa fechada, e tudo em boa ordem nos 23 segundos.
Era assim que tudo funcionaria dali em diante.

A tampa foi finalmente aberta no sobrado entre as nossas duas camas — a minha e a do Dias Lourenço, que foi o grande dinamizador deste projeto. Ficámos também a fazer parte do grupo coordenador da superfície. O trabalho mais difícil, e que requeria além de boas condições físicas, rapidez e muita coragem, era o de «mineiro». Foram seleccionados para essa tarefa, entre outros, o Severiano Falcão, o José Magro, o José Maria do Rosário, o Chico "Caniço" e o Borda. Outros camaradas colaborariam nos vários trabalhos de vigilância e arrumação de terras, como o Agostinho Saboga e o Alcino de Sousa.

Calculou-se que a distância entre o local onde ia começar o túnel e a muralha seria cerca de 10 metros. Isto iria trazer acrescidas dificuldades de realização que foi necessário ir, aos poucos, estudando e encontrando solução. Entre os presos da caserna havia o camarada José Alexandre, mineiro das Minas de S. Domingos. Foi ele que nos aconselhou a abrir o túnel com uma inclinação ascendente. Isso facilitava a remoção das terras e permitia uma mais rápida saída do túnel nos momentos de alarme. Também foi ele que nos ensinou a técnica mais segura para escorar o túnel. As terras eram muito soltas e havia o perigo de desmoronamento. E um desmoronamento seria a morte quase certa do camarada que estivesse lá dentro.
A madeira para as escoras veio das malas de cada um. Iam desaparecendo à medida que o túnel ia avançando. Quando o túnel atingiu 4/5 metros de comprimento começaram os problemas de ventilação para quem trabalhava lá dentro. Dificuldade agravada com a forma de iluminação: a chama da vela queimava muito oxigénio e agravava o problema da ventilação.
O Dias Lourenço propôs-se fazer um ventilador igual ao das pequenas forjas de serralheiro. Não havia chapa mas ele construiu-o de cartão forte. Quando o pôs a funcionar o cartão não aguentou. Mas este não foi o único fracasso. Para resolver o problema da luz também alguém sugeriu a montagem de iluminação eléctrica. Encontrámos forma de fizer entrar o fio e a lâmpada. Os mais entendidos em eletricidade encarregaram-se de fazer a instalação.
Na noite em que experimentámos a ligação à instalação da caserna como que suspendemos a respiração a aguardar o resultado. Foi um fracasso total. Um curto-circuito pôs toda a fortaleza às escuras e houve alarme geral.

Na visita que se seguiu os carcereiros não encontraram nada suspeito na nossa caserna. Mas, como medida de segurança, foi decidido suspender os trabalhos durante algum tempo, até porque também era necessário encontrar solução para os problemas de ventilação que tínhamos pela frente.
Tinham já passado os dias de incerteza. A vida prisional tinha voltado à normalidade, agora que tudo fazíamos para que nada viesse a perturbar o nosso plano de fuga. Foi um tempo de espera e de reflexão depois do incidente elétrico que quase deitara tudo a perder. Estávamos agora novamente em condições de retomar o trabalho, mas primeiro que tudo era preciso resolver o problema da ventilação sem a qual era difícil prolongar o túnel.
Foi o Agostinho Saboga, da Marinha Grande, quem nos deu a chave da solução propondo a construção de um fole idêntico aos usados pelos vidreiros. Para isso precisávamos de cabedal, ou pelo menos de uma porção de carneira fina. Ele próprio fazia o fole, mas não queria arriscar-se com outro material que não resultaria. Tínhamos presente o falhanço do ventilador do Dias Lourenço exatamente por falta de material capaz.
Foi então que surge a decisão de se passar a fazer de encadernador. A minha companheira e a companheira do Gabriel, a Encarnação, eram as únicas entre as visitas que sabiam dos preparativos da fuga. A minha companheira era quem cá fora se incumbia de nos resolver as dificuldades. As ligações da organização prisional com o Partido faziam-se por seu intermédio. Com a nossa ajuda nas visitas, com a ajuda dos camaradas cá fora e com muita imaginação da sua parte as coisas iam entrando e saindo. Para algum assunto mais trabalhoso a Encarnação participava e nunca virou a cara.
Pedi autorização para receber cartão, papel, fio e carneira para encadernar uns livros para o meu filho. Foram de Salgari os primeiros livros que lhe encadernei. Depois encadernei A Selva e fiz uma pasta de secretária para oferecer à minha companheira. Os livros profissionais que comprei para aprender o "ofício" também me ensinaram que com vários ácidos se podia desenhar na carneira. Que o óxido de zinco faz cinzento, que o cloro faz castanho, etc., etc.. Pedi para me facultarem a entrada de vários desses produtos e expliquei para quê.
Os carcereiros iam-me vendo trabalhar e iam cedendo, talvez na secreta esperança de que "me deixasse de políticas" corno eles aconselhavam a tantos. Entretanto a carneira ia sobrando e o Saboga ia fazendo o fole. Quando deu o trabalho por terminado fizemos a experiência e tivemos outra desilusão; o ar insuflado pelo fole não chegava ao fundo do túnel. Sabíamos que havia falta de oxigénio porque a chama que lá acendíamos se apagava passado pouco tempo. Os camaradas corriam perigo e naquelas condições não era possível continuar. Era indispensável fazer entrar um tubo que, aplicado ao fole, levasse o ar até ao fundo do túnel.
Foi talvez esta a tarefa mais difícil que foi posta à minha companheira para ela resolver. Foi à Pollux, comprou dez metros de tubo de plástico maleável e fez o mesmo que já tinha feito para introduzir o fio eléctrico — enrolou-o muito bem no fundo de um tacho e encheu¬o de arroz doce. Depois decorou-o a preceito como se faz nos dias festivos. Só que uns metros de fio eléctrico fazem pouco volume enquanto o tubo de plástico fazia um volume maior. Por isso na visita as nossas famílias apareceram com um tacho tão grande que dava nas vistas...
— Hoje é dia de festa lá em casa. Trazemos arroz doce para todos!... Já pedimos autorização!...
Trazia à mistura também mais algumas guloseimas, mas era apenas para servir de cenário. Foi um risco calculado que resultou bem.
A visita acabou. Viemos para a caserna e foram minutos de martírio até sermos chamados para ir buscar as coisas. Por nós e por elas. Lá fomos e lá veio o tacho com o tubo dentro.
E foi assim que retomámos os trabalhos de perfuração. A solução do fole resultou inteiramente e agora a chama não se apagava.
Entusiasmado com o êxito do tubo, um dia, o Dias Lourenço, numa visita, disse em segredo à minha companheira:
— E agora tens de cá meter um candeeiro!...
Não foi necessário. Bastou trazer um frasco com doce, cuja configuração da boca permitiu adaptá-lo a candeeiro. Fez-se um furo na tampa, meteu-se-lhe uma torcida feita de algodão e o combustível foi o petróleo que havia na caserna, porque naquele tempo ainda era permitido cozinhar e o lume usado eram os antigos fogareiros a petróleo.
O trabalho foi retomado. O túnel atingiu dez metros sem grandes novidades, mas a muralha não aparecia. Cada vez era mais difícil cumprir os 23 segundos nos alarmes.
A saída fazia-se em corrida de coelho, mas recuando porque a largura e altura do túnel não permitia virar o corpo. Para tornar a saída mais rápida alguém lembrou molhar o chão do túnel. A terra era barro e molhado permitia um melhor deslize na descida quando era necessário sair rápido.


Estávamos perto do Natal de 1953 quando se atingiu a muralha. Há mais de três meses que tínhamos iniciado o túnel. Foi um momento de alegria. Agora era preciso a cabeça fria para a parte final. O túnel tinha precisamente 12 metros e na posição em que os camaradas trabalhavam não era possível atacar a muralha. Segundo os camaradas que trabalhavam no túnel era indispensável abrir no fim do túnel uma plataforma onde fosse possível trabalhar sentado e foi o que decidimos fazer. Entretanto o Natal chegou e decidimos suspender os trabalhos e fazer um Natal festivo e calmo, naturalmente cheios de confiança.
Estávamos atarefados a preparar a ceia da véspera, e quando o Faria Borda se esmerava a preparar os seus petiscos o guarda abriu a porta e disse:
— Os senhores Faria Borda, Fernando Vicente e Joaquim Casquinha preparem as suas coisas para saírem em liberdade!
Foi um corrupio de abraços. Ao fim de 18 anos de prisão quase todos cumpridos no campo de concentração do Tarrafal, os nossos camaradas iam finalmente conhecer a liberdade.
Tivemos nesse ano um Natal duplamente festivo: o nosso projeto caminhava de vento em popa e os três camaradas marinheiros, principais personagens do heróico levantamento da marinha de guerra portuguesa contra o fascismo em 1936 tinham saído em liberdade.
 Qualquer dos três camaradas conhecia em pormenor Os nossos planos de fuga e estava a colaborar activamente nos trabalhos. Mas numa rápida apreciação da situação concluímos que a sua saída não alterava em nada Os nossos planos. A confiança nos camaradas era total. Não havia razão para qualquer preocupação.
Os trabalhos iriam continuar logo a seguir aos festejos do Natal e desta vez com a colaboração de um novo camarada que entretanto acabava de chegar à nossa caserna — o camarada Carlos Pinhão, que imediatamente se integrou no grupo de trabalho dos vigilantes.

Estávamos em Janeiro. Era uma noite de luar, aquele nosso conhecido luar de Janeiro que torna as noites luminosas. Uma aragem fresca soprava do lado do mar e quando assim era ouviam-se mais distintamente as vagas contra as muralhas, e a ondulação invadia com mais força as cavernas subterrâneas da Fortaleza, percorrendo-as, fazendo bater as pedras soltas contra o fundo rochoso. Durante os anos que duraram a nossa prisão tínhamo-nos familiarizado com este som marítimo nas noites de maior invernia. Da mesma forma que nos era familiar a ronca do farol do Cabo Carvoeiro avisando a navegação nos dias e nas noites de nevoeiro.
Mas eram estas noites de mar batido as melhores noites que tínhamos para trabalhar dentro do túnel, agora que estávamos na derradeira fase de atravessar a muralha, arrancando-lhe pedra a pedra, até encontrar do lado de lá a liberdade que procurávamos.
No pleno silêncio das noites calmas qualquer ruído suspeito podia alertar a sentinela da GNR que se deslocava por cima da nossa caserna. O seu alerta ouvia-se de vez em quando e repercutira-se depois por todos os outros postos de vigia, por cima das ameias, à volta da Fortaleza.


Naquela noite contávamos com o barulho vindo do mar e com o som das pedras a bater umas contra as outras nos fundos da Fortaleza para abafar os ruídos metálicos das ferramentas que tínhamos começado a usar para arrancar as pedras das muralhas. Por isso se trabalhava com absoluta confiança e longe de pensar que o perigo nos espreitava.

Passava da meia-noite. Pelas nossas contas não tardava que o guarda viesse passar a ronda habitual.
De vigia à janela estava naquele turno o camarada Carlos Pinhão. Junto da tampa estávamos eu, o Dias Lourenço e o Gabriel. Como de costume havia vários camaradas bem acordados.
Não me recordo já de quem estava a trabalhar dentro do túnel. Mas lembro-me ainda bem (como de um mau pesadelo) do momento em que recebi do Carlos um esticão de alarme, seguido de outros pequenos esticões indefinidos. O alarme foi imediatamente transmitido para dentro do túnel. O camarada saiu e foi meter-se na sua cama. A tampa foi fechada como de costume. Passaram-se alguns segundos para além do previsto sem o guarda aparecer. Por fim ouvimos a sentinela gritar lá de cima:
— O que é que estes gajos estão a fazer em pé a estas horas?!...
Concluímos que falava para o guarda. Foi um momento de grande surpresa e de expectativa. A sentinela da GNR tinha avistado o Carlos Pinhão à janela e deu o alarme.
Tomámos rapidamente algumas medidas: quando finalmente o guarda Serrado acendeu a luz e abriu a porta pedimos que chamasse urgentemente o enfermeiro porque tínhamos um camarada bastante doente com urna cólica. Olhou-nos incrédulo mas viu o Guilherme de Carvalho na cama a torcer-se com dores e uns camaradas a acender o lume para aquecer a água e outros com um saco na mão para lhe aplicar sobre a dor.
Acabou, por nossa insistência, por ir chamar o enfermeiro. Entretanto vários camaradas se levantaram e todos esperávamos o enfermeiro "alarmados com o estado de saúde do camarada...".
Veio o enfermeiro e meio desconfiado viu o "doente". Para tornar mais verídica a "doença" o Guilherme tinha suportado sobre os rins um saco tão quente que a pele estava a empolar. Mesmo assim ficámos convencidos de que, quer o enfermeiro, quer o guarda, não tinham "comido" a explicação...
Quando saíram e voltaram a apagar a luz decidimos jogar tudo por tudo; montámos de novo um dispositivo de vigilância e metemos dentro do túnel tudo quanto nos podia denunciar numa busca à caserna: o fole, o tubo, o fio eléctrico que tinha servido para a experiência falhada, o candeeiro, toda a roupa suja usada nas escavações e até o rodo que servia para espalhar a terra por debaixo do sobrado. Depois tapámos com terra a boca do túnel até ao nível da tampa e fechámo-la o melhor possível. Só nos restava esperar pelos acontecimentos que se haviam de seguir.

Entretanto o Carlos Pinhão foi-nos contando o que se tinha passado com ele: viu o guarda aparecer na esquina e deu o alarme. Mas inexplicavelmente o Serrado em vez de vir em direcção à caserna seguiu em frente para o lado do mar. Para não o perder de vista avançou um passo e debruçou-se mais na janela por detrás dos vidros. Devia ter sido nesse movimento que ele ultrapassou a zona escura de segurança e foi visto de cima pela sentinela. Ficou sempre por entender o comportamento do guarda Serrado, mas é muito possível que aquele luminoso luar de Janeiro, com que não contávamos, nos tivesse traído, evadindo a zona escura demarcada e que também o guarda Serrado tivesse avistado a silhueta do Carlos. Pode ter querido enganar o Carlos dando uma volta maior.
No dia seguinte, depois da alvorada, foi servido o café com toda a normalidade. Passado pouco tempo um guarda veio dizer-nos para pormos as camas na rua.
—É para lavarmos a caserna? — perguntámos.
—Depois se verá! — respondeu misteriosamente o guarda.
Pusemos as camas na rua como era habitual para as limpezas, mas logo a seguir chegou o chefe dos guardas. Vítor Ramos, com o ajudante Bastos e mais um grupo de guardas. Esperámos com o coração oprimido o resultado da busca. Alguns de nós disfarçávamos o nosso nervosismo brincando com uma bola, mas os nossos sentidos estavam todos virados para o que se estaria a passar lá dentro.
Daí a pouco o Bastos sai e regressa com um martelo e uma picareta. Olhámos uns para os outros preocupados. Tudo parecia agravar-se...
A busca foi demorada mas em certo momento sentimos que tudo estava perdido: foi quando ouvimos o ruído de tábuas a serem levantadas. A terra que tínhamos tirado do túnel estava espalhada por debaixo do soalho. Em qualquer local onde fosse levantada uma tábua se veria terra solta e com sinais de ter sido mexida. E terra solta e fresca era sinal de buraco em qualquer sítio: era só questão de procurar.
E foi o que aconteceu. Não tardou que ouvíssemos um certo sussurro e urna agitada movimentação. Estava tudo descoberto!...
A partir dali foi apenas necessário acalmar os desânimos e preparar as pessoas para o embate com os carcereiros ou mesmo com a PIDE.
Pela tarde adiante fomos transferidos para a sala 3 — a nossa primeira caserna. Ficámos todos sem visitas e sem correspondência até apuramento de responsabilidades. Meteu inquérito da PIDE. Fomos um a um chamados a depor. "Seriam castigados todos aqueles que não provassem a sua inocência." Como ninguém prestou qualquer declaração contra quem quer que fosse, o castigo foi coletivo — 30 dias de isolamento na caserna.

Joaquim Campino

fuga #1 1950

Uma das preocupações dos carcereiros para tentarem contrariar, tanto quanto possível, as lutas que, em Peniche, os presos políticos eram com frequência forçados a travar pela melhoria das condições da vida prisional, consistia em, de vez em quando, fazerem mudanças de presos de umas salas para outras, particularmente dos camaradas mais responsáveis, que eles consideravam e apelidavam de "cabecilhas". Estamos a referir-nos a uma fase em que ainda não havia celas na cadeia de Peniche.


No entanto, havia nisto uma grande desorientação dos carcereiros, talvez até porque nenhum processo provava dar resultado. Umas vezes separavam e dispersavam os tais "cabecilhas" por várias salas (ou casernas, como neste tempo ainda se designavam em Peniche as habitações dos presos), outras vezes juntavam-nos todos numa só sala, separados da massa dos presos.
No primeiro caso, pretendiam impedir que pudessem combinar entre si e organizar qualquer acção, visto estarem separados e impossibilitados de comunicar devido ao total isolamento dumas salas em relação às outras. No segundo, estando juntos mas isolados dos restantes presos, não poderiam exercer a sua influência nociva sobre eles e arrastá-los para a luta. Estas eram as conceções dos carcereiros, cujos métodos, contudo, não demonstravam grande eficácia.

Foi numa destas mudanças que se criaram condições muito favoráveis à organização e preparação de uma fuga. Alguns dos presos mais responsáveis então em Peniche, nomeadamente Jaime Serra, foram transferidos para uma sala (antes desactivada), onde já se encontrava isolado, havia algum tempo, Francisco Miguel, uma sala afastada da zona central do Forte onde estavam a população prisional e os serviços da cadeia. Com Jaime Serra foram vários presos de um processo do Algarve, vários outros do Porto e Gabriel Gomes – este condenado a longos anos de prisão por ter sabotado alguns aviões, numa tentativa putchista de Abril de 1947. Totalizavam cerca de vinte presos.
Esta sala, conhecida pela sala 5, situava-se no extremo sul do Forte, encostada à muralha exterior, ao lado das instalações do destacamento da GNR que ali fazia serviço de vigilância e que era rendido mensalmente.
Como nesse tempo o corpo de guardas prisionais em Peniche não era ainda muito grande, os carcereiros tinham dificuldade em manter lá um guarda permanente. E como a sala estava ali mesmo nas barbas da GNR, o guarda prisional só lá ia nos momentos da rendição para contar os presos, às horas da refeição para que fossem buscar a comida à cozinha, às horas do recreio, e pouco mais.


O facto da sala ficar encostada à muralha que dava para o mar e a pouca vigilância dos guardas da cadeia criavam boas condições para a preparação de uma fuga. Nesse sentido, começou-se a trabalhar. Duas hipóteses foram consideradas, uma delas como alternativa à outra e para o caso de essa ter que ser abandonada.
A primeira, por ser a que oferecia melhores condições de êxito e possibilidades para a saída de mais camaradas, era abrir um buraco na muralha, por onde sairiam directamente para o mar os presos interessados em fugir. Previa-se que chegariam ao molhe do porto sem muita dificuldade e sem grande perigo de serem detectados visto a distância ser relativamente curta.
A segunda, consistia em serrar a grade de uma janela que dava para o interior da fortaleza, subir umas escadas em pedra à face da muralha que levavam ao terraço da mesma, saltar para aí e, pelo lado oposto, descer depois para o mar através de uma escada de corda previamente preparada.
Esta última hipótese era bastante mais perigosa, visto que todo o percurso até ao início da descida para o mar (mais concretamente sobre as pedras que existiam encostadas à muralha) era feito debaixo do ângulo de visão da sentinela da GNR que, ali próximo, sobre o terraço das muralhas, fazia vigilância, andando de um lado para o outro. Era necessário aproveitar os momentos em que o guarda marchava de costas para nós.
Era também a mais limitada, decidindo-se que por ali não poderiam sair mais do que dois camaradas, exactamente pelos perigos que oferecia de sermos detectados.
Era ainda bastante perigosa no que se referia ao risco de acidente, dado que a escada tinha que ser fixada no topo da muralha e existia o perigo de, na descida, com o peso e os balanços do corpo, a escada se desprender ou mesmo partir. As cordas eram feitas com pontas de fio unidas e entrelaçadas, igual ao das redes dos pescadores, a que se ligavam depois bocados de pau de vassoura, dando-lhe a forma de escada.
Lançámo-nos, pois, ao trabalho na preparação da fuga através da muralha e, nas horas vagas, confecionávamos corda para a hipótese de termos que recorrer a esta alternativa.

Demarcado o sítio na muralha onde se iria abrir o buraco, logo se adquiriram umas folhas de papel de embalagem (papel ferro) com que se forrou a parede naquela zona, se colocaram uns cabides e se começou a dependurar ali algumas roupas, como sobretudos e casacos. Isto tinha o objectivo de habituar os carcereiros a verem aquele sítio como o lugar onde os presos penduravam a roupa e que aquelas folhas de papel se justificavam para a preservar da humidade da parede. Isto até era verdade, mas havia outra justificação, e esta só para nós, que era termos o buraco sempre tapado.

De posse de algumas ferramentas que, precavidamente, se tinha ido reunindo iniciou-se o trabalho. A tarefa não era fácil. Para além de desconhecermos a espessura da muralha e dos meios muito rudimentares que tínhamos para trabalhar, tínhamos ainda de resolver outro problema não menos complicado: onde esconder tudo quanto dali se tirava, como pedras e terra, todo aquele entulho.
Embora não houvesse guarda permanente no sítio, iam lá algumas vezes ao dia. À quinta-feira de cada semana tínhamos que pôr as camas na rua deixando tudo a descoberto e guardas da GNR rondavam sempre por ali próximo.

Alguma terra conseguíamos deitá-la ao mar, quando vazávamos o caixote do lixo através de uma ameia na parte baixa da muralha próximo da porta da sala, o que geralmente se fazia sob os olhares do guarda. Mas isto era uma gota de água no oceano – no caso, uma gota de terra! E a outra? E as pedras – algumas bastante grandes!?
A solução foi rasgarem-se algumas mantas e lençóis, com eles fazerem-se sacos, enchê-los e metê-los debaixo das camas. Com algumas pedras fizeram-se bonitos embrulhos, com papel apropriado, que se colocaram sobre prateleiras (bastante resistentes) que havia à volta da sala onde se punham malas e outras coisas. Outras ficaram no chão, mas devidamente acondicionadas.

Estavam as coisas a andar normalmente – a normalidade possível nestas situações – quando estalou uma greve da fome espontânea, por parte dos restantes presos do Forte que se encontravam na zona de que estávamos isolados. O buraco já tinha cinco metros de profundidade a caminho do exterior.
Tínhamos furado a parede interior da muralha com cerca de dois metros de espessura, atravessado depois uma zona de entulho com cerca de três metros e chegado à parede exterior, que calculávamos tivesse pelo menos outros dois metros. Era um túnel que íamos escorando como podíamos.

Não estávamos nada interessados numa greve da fome naquele momento devido à tarefa que tínhamos em mãos. Mas ela surgia e não tínhamos nada a fazer senão participar. A greve da fome surgia como resposta dos presos à acção repressiva e provocatória dos carcereiros, ambiente que aliás estava na origem do nosso isolamento na sala 5. Era nosso dever não apenas entrar nela mas procurar intervir, por todos os meios possíveis, na sua orientação e direcção, pois ali estavam os presos politicamente mais responsáveis. Foram sete dias sem ingerir qualquer alimento, acompanhados de outras formas de protesto, como recusa de tratamentos e visitas das famílias depois de estas saberem o que se passava.

Ao fim de uma semana de greve da fome era bastante grave a situação dos presos políticos no Forte de Peniche. A sua repercussão no exterior, devido à grande pressão das famílias e de muitas outras pessoas solidárias com a sua luta, começava a preocupar os fascistas. Foi neste quadro, que enviaram à cadeia dois inspectores da Direcção Geral dos Serviços Prisionais, acompanhados de um médico, para tentarem resolver a situação.
Estes ouviram os presos sobre as razões da greve da fome, prometeram que alguns dos problemas que tinham levado à greve seriam resolvidos, sobre outros prometeram intervir, insistiram para que a terminássemos, permitiram finalmente que uma delegação da nossa sala fosse às outras salas encontrar-se com os outros presos para, em conjunto, se decidir da atitude a tomar. Dos contactos havidos, e perante as promessas feitas, saiu a decisão de se pôr fim à greve. De imediato não estávamos em condições de prosseguir a tarefa que tínhamos em curso e que suspendêramos por causa da greve da fome. Bastante enfraquecidos, cada um de nós com vários quilos a menos, necessitávamos de um período de recuperação até que se pudesse continuar.

Entretanto, passados alguns dias, talvez semanas, tomou-se conhecimento de que iam ser transferidos presos para a cadeia de Setúbal para serem iniciadas obras na de Peniche. Uma das nossas reivindicações, no conjunto das que tinham levado à greve, era exactamente a melhoria das instalações prisionais. Seguiu-se a saída de dois da nossa própria sala.
Certos de que mais se seguiriam e podíamos sair todos dali, decidiu-se pôr imediatamente em execução o plano alternativo. O plano da muralha foi abandonado. Nestas condições, a fuga tinha de limitar-se aos dois camaradas mais responsáveis que ali se encontravam, Francisco Miguel e Jaime Serra. Mais, seria aumentar consideravelmente o risco de ser detectada pelas sentinelas.

Tudo correu bem. Cortada a grade até ao fim, montada a vigilância necessária e possível para controlar os movimentos da sentinela mais próxima, distribuídas as tarefas que cada um tinha de realizar no momento, próximo das três horas da manhã do dia 3 de Novembro de 1950 os nossos dois camaradas saíram como previsto, e com êxito, da Fortaleza de Peniche.


O ferro cortado da grade voltou a ser colocado no sítio, colado com uma massa feita de sabão e limalha da serradura, o que lhe dava um disfarce quase perfeito, e uns bonecos feitos com roupa foram colocados nas duas camas vazias a imitar os corpos, pois às cinco horas o guarda vinha contar e era necessário certificar-se de que estavam todos. E assim foi!

Quando a partir das 7 da manhã nos levantámos sem que nada de anormal tivesse ocorrido, a nossa sensação de alívio e bem estar era enorme. Àquela hora, mais de quatro horas passadas, os nossos camaradas estariam certamente a salvo de qualquer perseguição consequente à fuga, pensávamos nós.

Só já muito próximo das nove horas a fuga foi detetada. Alguém da cadeia terá visto a escada a balançar na muralha. Imediatamente um guarda se dirigiu à sala a correr, abriu a porta, apitou para formarmos, contou, identificou um nome dos que faltavam e perguntou, quem era o outro. Mudos estávamos, mudos continuámos. Insistiu, voltou a contar, descobriu ele próprio quem era, fechou a porta, foi embora a correr como tinha vindo.

Tínhamos connosco uma garrafa de vinho do Porto que não me recordo como tinha entrado. Bebêmo-la, fizemos a festa. Os carcereiros estavam ainda sem saber como é que os presos tinham saído da sala para fugir. Tudo parecia intacto.
Em dado momento, o chefe dos guardas da cadeia mais o sargento da GNR aproximaram-se da janela.
Enquanto aquele olha fixamente para a grade, o sargento, apercebendo-se, diz com toda a convicção:
-Por aqui não foi. A sentinela teria visto. Deve ter sido lá por trás!
-Lá por trás era impossível! – diz o outro.
De repente estende a mão e arranca o bocado de ferro cortado.
-Vê?
Atrapalhado, o sargento desculpa-se com a lâmpada que ilumina o sítio e que às vezes se apaga. E lá se foram embora, um contente por ter descoberto, o outro nem tanto.

A meio da manhã, o diretor da cadeia manda chamar à sua presença Gabriel Gomes. Quer saber como foi, como é que os presos fugiram, a que horas, e por aí adiante: Ameaçou, provocou. Desistiu. E nós presos, vivíamos um momento de felicidade.

Quando, pelas duas horas da tarde aproximadamente, vimos, através das grades da janela da nossa sala, passar Francisco Miguel que, entre dois guardas, acabava de reentrar na cadeia, foi como se um enorme balde de água gelada nos tivesse encharcado da cabeça aos pés. Contudo, o facto de vir só, deixava-nos a esperança de que Jaime Serra tivesse conseguido escapar à perseguição.

José Vitoriano


Por deficiente coordenação com o exterior, nem o apoio no interior da vila estava assegurado para essa noite, pois o camarada Saul estava para Lisboa, segundo nos foi dito posteriormente, e a companheira ou não estava avisada ou não quis colaborar. Perante a nossa insistência ameaçou mesmo chamar a polícia.
Nesta situação tivemos que meter os pés à estrada sem qualquer outro apoio alternativo, nem em Peniche, nem em qualquer outro local. Esta grave lacuna iria custar-nos caro.

A saída de Peniche por estrada era uma única e ladeada por um posto de Polícia de Trânsito, como existiam nessa época em pontos estratégicos de circulação rodoviária.
Ultrapassámos, lateralmente, pelos terrenos adjacentes, o posto da polícia e, já pela manhã, alcançámos uns campos próximos da costa marítima, onde nos escondemos numa vala debaixo de uns silvados, uma vez que o dia começava a clarear.
Como disse depois o Chico: "Pouca sorte a nossa!"

Era o dia da abertura da caça e manhã adiante apareceram uns cães a ladrar furiosamente e, atrás dos cães, Os caçadores. Estes mais perigosos do que aqueles.
Os cães ladravam cada vez mais e não arredavam pé. Os caçadores, julgando haver caça, preparavam as espingardas para atirar, ao mesmo tempo que diziam:
— E bicho! É bicho!
Não tivemos outro remédio senão sair da toca e mostrarmos que não éramos os tais bichos que esperavam.
Os caçadores ficaram esclarecidos, mas agora também desconfiados, sem saber que tipo de homens era e o que fazíamos ali. Ficámos sem esconderijo e tivemos que procurar outro.
Poucos metros andados, demos de caras com o guarda Esteves, bem nosso conhecido, que ia entrar de serviço na Fortaleza de onde acabávamos de sair com tanto trabalho. O guarda Esteves reconheceu-nos imediatamente. Já era um indivíduo corado, mas ficou vermelho com a surpresa. Não disse nada, mas deu meia volta e manobrou de modo a não nos perder de vista, acompanhando-nos a uma certa distância.
À entrada de S. Bernardino, aldeia onde morava o guarda, decidimos separar-nos, pois já era clara a manobra do indivíduo no sentido de buscar apoios para nos capturar. Para ele era "caça grossa". Como morava perto, muniu-se rapidamente duma espingarda e imobilizou logo ali o Chico. Este, para me dar tempo, ficou a esgrimir com ele, tanto tempo quanto pôde, gritando e barafustando.
A partir desse momento, o destino do Francisco Miguel estava decidido. O guarda Esteves, com o auxílio de familiares e de outros guardas que moravam naquela aldeia, prenderam-no, levando-o para a Fortaleza, onde foi rudemente tratado. Esteve algemado no "segredo" durante 17 dias e foi posteriormente enviado pela PIDE de novo para o Tarrafal, onde já havia estado durante 6 anos.

No momento da prisão do Chico, o meu destino era ainda urna incógnita. Tendo-nos separado, conseguimos realmente dividir de imediato os nossos inimigos. Saltei uns muros e corri sempre durante bastante tempo na direcção do mar.
Na encosta marítima, que era ali bastante alta e escarpada, escondi-me o melhor que pude numa espécie de cova, tendo dormido até ao fim do dia. Ao acordar, a primeira coisa que me surpreendeu agradavelmente foi estar vivo e em liberdade. Avistava os barcos de pesca ao longe e decidi permanecer no local até à noite.
Já bem noite dentro, uma noite muito fria de Novembro, arranquei em direcção ao Sul, sempre junto à costa, avançando cautelosamente. Tinha uma fome terrível, comendo nas hortas por onde passava tudo que se parecesse com legumes.

Durante dois dias caminhei em direcção a Lisboa, avançando de noite e escondendo-me nos campos durante o dia. Nos percursos feitos na estrada, evitava cuidadosamente os faróis dos automóveis, saltando, mesmo descalço, pois já não aguentava os sapatos, para fora da estrada.
Numa feira, não sei qual. nas cercanias de Torres Vedras, comprei pão e queijo e também umas botas, pois os malfadados sapatos novos que havia utilizado na fuga tinham-me posto os pés a sangrar durante as noites da caminhada.
No dia 6 à noite, três dias após a fuga, percorrendo a partir da Zibreira a última parte dessa longa caminhada, cheguei a Mafra, onde procurei a casa do camarada Medeiros, que havia estado preso em Peniche e que eu sabia ter ali uma farmácia.

Foi este camarada e a esposa que me deram dormida, depois de um bom banho. Na manhã seguinte transportaram-me no seu carro para Lisboa, seguindo caminhos secundários. No dia 7 de Novembro, aniversário da Revolução de Outubro, entrei em contacto com o Partido para continuar, em liberdade, a luta pela Liberdade!

Jaime Serra

fuga #0


Os resistentes à ditadura merecem todo o meu respeito e admiração por terem destruído de forma consciente as suas vidas a lutarem por um mundo melhor para todos nós.
São um testemunho dos tormentos e atrocidades cometidos durante esse período negro da nossa história mas também das capacidades de resistência e determinação do ser humano.

Vou passar a publicar os relatos que encontrei dos seus esforços (por vezes em vão) de se evadirem da Fortaleza. A ilustrá-los estão fotos tiradas por mim e outras que fui buscar a livros e à Internet. A Fortaleza passou por diversas mutações durante o Estado Novo e há poucas fotos dessa altura, no entanto vou procurar ser o mais rigoroso possível quanto ao espaço e tempo mencionados no texto.