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scouting #5 monumentos do concelho

Fiz o que propus e fui hoje explorar a opção mais votada na coluna da direita - os monumentos das terras do concelho.

É complicado e não sou eu quem tem a definir o que é monumento e o que não é. Como tal, e também por não conhecer nem ter acesso a fontes sobre outros, limitei-me àqueles que me parecem ser os mais emblemáticos. Não quis com este trabalho fazer investigação histórica, mas sim falar sobre a forma como a população tem acolhido estes monumentos, as suas modificações no passado recente e os riscos que correm.

Igreja de São Leonardo - Atouguia da Baleia


A Igreja de São Leonardo é do século XIII ou XIV. Percorrendo-a damos com um pormenor mais descontextualizado:


Este parece-me ser o ponto mais fraco de um enorme processo de restauro que a igreja sofreu no início da década de 70, que modificou bastante o seu aspeto de forma a lembrar a época medieval da sua existência, através da destruição de elementos introduzidos posteriormente, por a descoberto frescos da época e "rasgar" a parede em diversos locais do interior e exterior de forma a mostrar a alvenaria em lajes de pedra perfeitamente alinhadas.

Deixo algumas fotos dessas obras:










 Cruzeiro Manuelino - Coimbrã


É uma construção muito simples, datada de 1525, que se encontra escondida na periferia desta aldeia.
No entanto, apresenta uma enorme beleza e é uma sorte que tenha chegado até aos dias de hoje.




Paço de D. Pedro - Serra D'El Rei


O atual paço resulta da ampliação de um bastante mais rústico com origem em meados do século XIV. Um dos vestígios da primitiva construção são as ruínas de uma torre, transformadas em miradouro no século XIX.


Em 1970 a fachada sofreu uma pequena remodelação, com vista a reforçar os seus traços arquitetónicos. Este era o seu aspeto anterior:


Duas portas foram transformadas em janelas e criadas à sua volta molduras que tentaram integrar no conjunto artístico do local, embora não me pareça terem chegado ao resultado mais discreto.


 Atualmente a propriedade é privada e está para alugar e tem site próprio.


Convento - São Bernardino


Os seus edifícios foram totalmente aproveitados para outras funções, o que é um exemplo de utilização de monumentos cujas funções anteriores cessaram.
O terreno pertencente ao convento ainda é bastante extenso. Normalmente a evolução de uma terra para as periferias "come" os terrenos antigamente pertencentes a um determinado proprietário, nomeadamente os de um convento, como aconteceu com tantos em Coimbra e com o de Peniche. O de São Bernardino teve a sorte de continuar a estar no extremo do perímetro urbano, senão não teria a área que ainda possui.



Forte - Consolação


Ao contrário do resto das construções defensivas com processos de restauro, que costumam ser deixadas com a pedra à vista, o Forte da Consolação foi integralmente rebocado e caiado em 1997, no entanto atualmente a pintura já está bastante desgastada.


Chama bastante a atenção haver um WC portátil em frente à entrada do forte. Não percebo como não encontraram um sítio mais discreto para o meter.


Houve uma altura em que houve um café instalado no seu interior, mas hoje encontra-se abandonado.


Comparando esta vista aérea (de 2009) com o estado atual, podemos ver como a erosão tem afetado a parte ocidental do forte:


No entanto, isso não é nada de grave, visto que esse pano da muralha não apresenta grande interesse nem havia nada que pudéssemos fazer por ele. Preocupa-me muito mais o estado em que estão as canhoeiras (originalmente 15) construídas em 1800 para impedir o acesso ao forte por terra.


As que estavam do lado do forte já desabaram e as restantes estão nesse caminho.


Isto acontece pois não são cobertas, logo a terra que as preenche tem tendência a ganhar raízes e sofre a erosão do vento, pelo que precisa de se expandir, empurrando os muros de pedra:





Há dez anos fez-se uma intervenção que consistiu em colocar blocos de pedra para suster alguns muros e reconstruiram-se outros que já tinham caído.


É uma intervenção que polui visualmente o monumento e não previne a derrocada dos restantes muros, pelo que é urgente fazer uma intervenção de fundo neste local. É verdade que estamos numa época pouco propícia a gastar dinheiro seja no que for, mas estando o local no avançado estado de degradação em que está, daqui a poucos anos não restará nada a não ser um monte de pedras avulso.


De fora desta análise ficaram muitas igrejas e capelas que se estendem por todo o concelho, no entanto só pelos monumentos aqui referidos já podemos constatar a riqueza do nosso património. Agora cabe-nos defendê-lo como uma mais valia para a nossa terra. Merece especial atenção a bateria do Forte da Consolação, da qual grande parte pode desaparecer dentro de pouco tempo.

Os votos nas outras opções mantêm-se, pelo que peço a quem votou nesta ou não votou em nenhuma que vote na coluna no lado direito ou me dê sugestões para mais explorações.

scouting peniche

Há posts que faço com algum interesse, outros com muito pouco ou nenhum, mas os meus favoritos são os "scouting". São os mais difíceis e os que eu gosto mais de escrever. Faço sempre um enorme esforço para que saiam totalmente corretos, o que se tem revelado impossível. Mas a exploração no terreno e a pesquisa nos livros complementam-se e são uma forma de por à prova tudo o que aprendi desde que em pequeno me comecei a interessar pela história da cidade.

Vou fazer um breve resumo do que se passou nos últimos episódios:


scouting #1 atouguia medieval



Neste primeiro passeio tentámos imaginar a Atouguia na época em que era um importante porto medieval, e chegámos à conclusão de que com poucos conhecimentos de arqueologia não é das aventuras mais fáceis.



Neste terreno encontrámos vestígios de diferentes épocas de ocupação, que remontam até há dois mil anos atrás, o que prova a riqueza que há em Peniche debaixo dos nossos pés.



Desta vez percorremos o fosso no dia do arranque oficial das obras e comprovámos a evolução das pontes que atravessaram o fosso, com a certeza de que um dia mais tarde também as estruturas hoje construídas serão consideradas arcaicas e substituídas por outras mais evoluídas.



Desta vez fomos percorrer o sub-valorizado sistema defensivo da cidade, tendo em atenção de que cada vez que o percorremos há menos para ver sem que ninguém se preocupe muito com isso.



E finalmente fomos descobrir os inúmeros moinhos que preenchem a península. Com recurso a plantas antigas tentámos descobrir as suas origens e ainda descobrimos que o autor fala muito de proteção do património mas os seus antepassados não se coibiram de mandar um moinho às urtigas para fazer uns trocos.

Isto é tudo muito lindo mas eu tenho andado a ver a Casa dos Segredos e acho que falta alguma emoção ao blog.
Por isso, vou pedir aos leitores que me indiquem o próximo caminho a percorrer (na coluna da direita).

Se acharem que há algum a escapar-me, indiquem-mo por favor.
Se tiverem mais dados sobre os percorridos ou a percorrer, também agradeço.

scouting #4 moinhos

Hoje vamos visitar os moinhos da península.
Começamos pelo que será um dos mais conhecidos e também o mais recente, datando de meados do século passado:


Andando um pouco para Sul, damos com as ruínas de um outro:




Este moinho pertencia ao extremo de uma área com vários moinhos seguidos, que foram registados nesta planta do início do século XIX:


Em 1832, concluiram-se as obras de uma fortificação, chamada Linha dos Moinhos, que contornava os diferentes edifícios:


Nesta fotografia do início do século passado, podemos ver os quatro moinhos da direita:



Atualmente só restam 3 moinhos:


Sendo que recentemente o segundo deles viu as construções à sua volta serem demolidas mas permaneceu de pé. Uma atitude louvável de vigia pelo património que suponho se poder atribuir à câmara.


O terceiro moinho foi convertido em residência. Note-se que tal como no segundo e em muitos dos moinhos que vamos ver, durante a conversão em habitação o telhado cónico foi transformado num com duas águas.


O próximo moinho localiza-se em frente ao hospital, num sítio antigamente conhecido por Alto da Macedónia, e tinha este aspeto em meados do século passado:


Atualmente, a autarquia está interessada na aquisição do terreno onde se situa para posterior recuperação e integração num jardim há já muito projetado que se estenderia do hospital até à fábrica da Ramirez. Neste caso em particular, a compra ainda só não ocorreu porque o proprietário não aceita o valor oferecido pela autarquia, no entanto qualquer obra nesta zona está embargada.



Fui procurar este moinho às plantas mais antigas que tenho, e em algumas delas, aparecem dois moinhos nesta zona:



Mas numa mais rigorosa, de 1798, os tais dois moinhos aparecem na zona correspondente ao atual hospital, pelo que podemos concluir que houve dois moinhos já desaparecidos nesta zona, e que este em concreto é posterior à criação deste mapa.


Existiu mais a Sul um outro chamado Moinho da Garavanha, que foi demolido para ser construída a antiga central elétrica.

Um moinho que passa bastante despercebido é que deu origem à capela-mor da igreja de Santana, conforme defende Fernando Engenheiro:

A porta que dá acesso à sacristia seria a porta principal do moinho, bem como a cinta saliente que tem na parte superior, no exterior, onde se supõe que trabalhasse o carreto. Serve este invento (peça de madeira formada por duas rodas) para virar o moinho conforme o vento.


A partir da sua adaptação para presbitério, foi fácil que para complementar o edifício se tivesse acrescentado para a frente o corpo principal, que possivelmente é o atual.
Esgotei todas as fontes de documentação onde pudesse encontrar alguns elementos relacionados com esta casa de oração. Dos elementos mais antigos, foi-me possível encontrar registado no livro de enterramentos da igreja de São Sebastião (Nº Sra. da Conceição) de 1595, fls 22V  - Fernão Dinis, ermitão, que foi de Santa Ana, faleceu na sua casa na era de 13/7/1622.

O próximo moinho a visitar chama-se Moinho da Fialha e data de meados do século XIX, aparecendo nesta foto de 1983 de António Jesus Lourenço:


Há quatro anos foi mandado recuperar pela câmara (ver comentários) e entregue à CERCI.


Um slideshow sobre a recuperação do moinho:


Descendo, encontramos os Moinhos de São Marcos:




Segundo algumas plantas do século XVIII, os primeiros a ser construídos (não sei em que altura) foram os dois anteriores e um no bairro do Visconde, a que se seguiram outros dois:




Nesta última planta, de 1798, aparecem já cinco moinhos, situação que ainda se mantinha em 1938:


A realidade hoje em dia é algo diferente, visto que o moinho do meio foi mandado demolir pelo meu pai. Pertencia ao meu bisavô, Manuel Farto, e depois da sua morte, os herdeiros quiseram vender o terreno. De forma a valorizá-lo para construção (de forma a que qualquer licenciamento não levantasse restrições devido ao património edificado) resolveram deitá-lo abaixo. O entulho daí resultante e as suas fundações ainda se encontram no local.


O leitor mais atento pode invocar que esta é daquelas atitudes que eu tenho vindo a condenar no blog. No entanto, com a constante destruição de património para lucro de uns poucos, eu tenho perdido aquilo que como penichense me também pertencia. Mas este caso é diferente. Sim, os penichenses perderam património, mas eu, ainda que indiretamente, ganhei uns trocos à conta disso. Não podem ser sempre os outros a lucrar com a destruição dos bens comuns.


Nesta foto do início do século XX, esse moinho aparece do lado esquerdo da foto. O do lado direito teve também o mesmo destino, para bem de uma outra família qualquer. Este retrato antecede a época em que diversas famílias de pescadores, oriundas principalmente da Nazaré, vieram habitar esta zona de Peniche, instalando-se em barracões de madeira, que depois deram lugar às casas coloridas que hoje conhecemos, numa das quais (nem tão colorida assim) foi integrado o moinho que aparece em primeiro plano.


Os moinhos valorizam bastante a malha urbana. Têm formas redondas, por oposto às faces planas que fazem parte de quase tudo o que há numa cidade.
Atualmente, temos dez moinhos na cidade, dos quais só um tem o equipamento original (do Forte da Luz) e só um está em condições de trabalhar (da Fialha).
Se sou capaz de a criticar, também devo dizer que pelo que tenho visto a conduta da autarquia nesta matéria tem sido exemplar (pelo menos desde que emprestaram ao meu pai um bulldozer para demolir o nosso moinho).
A verdade é que não vale a pena uma pequena cidade como a nossa estar a gastar balúrdios a devolver moinhos ao estado original. Reaproveitar os que estão em maior risco de colapso para casas de habitação (seja por iniciativa pública ou privada) seria uma forma de preservar e tirar partido do património sem grandes encargos para o estado.