qualquer coincidência não é coincidência

Sebastiano Serlio foi um arquiteto italiano que se dedicou a estudar os modelos arquitetónicos usados na antiguidade clássica. Os seus livros inspiraram muitas das obras realizadas na Europa renascentista, que nas suas construções incorporaram elementos inspirados nos seus desenhos de edifícios ancestrais.


Esta gravura (possivelmente referente a um edifício de época romana) aparece no seu quarto livro, bem como a descrição da ordem rústica, segundo a qual foi desenhado: 

Foi escolha dos antigos romanos misturar com o almofadado rústico não só o Dórico, mas também o Jónico e até mesmo a de Coríntio , pelo que não será errado em fazer uma mistura de um estilo, representando nele obra natural e artificial. As colunas com bandas de pedra rústica , a arquitrave e o friso interrompido pelas teclas , mostram uma obra natural , mas os capitéis e parte das colunas, assim como a cornija com o frontão representam uma obra de mãos humanas. Esta mistura, na minha opinião, é muito agradável aos olhos e representa em si um grande poder. Assim acho que para uma fortaleza este estilo é mais conveniente do que qualquer outro, e em qualquer parte dos prédios rústicos onde se coloque, ficará bem.

A prova de como os seus conselhos eram tidos em conta nos séculos XVI e XVII é dada pela porta do antigo Palácio do Governador na Fortaleza de Peniche, um dos poucos vestígios deste edifício a chegar até nós:


um final feliz


Nunca tive a pretensão de que deste blog fosse resultar algo de muito significativo, mas sempre tentei, como aconselhou Ricardo Reis, pôr quanto sou no mínimo que faço.
No entanto, isto sempre andou num limbo. Pela minha parte, não tive nem o tempo nem a informação de que gostaria para fazer deste lugar um verdadeiro espaço de reflexão quanto à cidade de Peniche em especial à relação da sua comunidade com o património.
Hoje sinto-me mais impotente do que nunca, por não me considerar competente quer na abordagem histórica, para a qual não tenho nem a legitimidade nem os recursos para desenvolver convenientemente, quer na abordagem política, visto que não pertenço aos círculos decisores onde nascem e se desenvolvem os projetos em Peniche. Até agora sempre ataquei a lógica do "eles é que governam isto entre eles", que sempre me pareceu uma desculpa para a inércia da população. Mas com o tempo (estou a ficar velho) cada vez tenho ganho mais consciência da inutilidade dos meus esforços.
Aquilo que um plebeu como eu se tem vindo cada vez mais a aperceber é de que à conta do desinteresse da população há uma elite de boas castas em Peniche que faz tudo o que eu mais posso desprezar em democracia: a convivência entre os empresários que submetem projetos e os autarcas que os aprovam; a discussão a portas fechadas e entre um círculo restrito de pessoas de temas que dizem respeito a toda a sociedade; a opinião de certas respeitadas entidades que falam do alto do seu bom nome e não dizem nada que se escreva, seja por não terem o trabalho de se informar minimamente ou porque lhes basta abrir a boca para que se lhes continue a reverência; a abertura da política a novas gerações apenas se os seus elementos forem portadores de um de uma meia-dúzia de determinados apelidos; a inclusão neste sarilho dos partidos que se revezam na autarquia (menos PC, que tem os seus próprios círculos) e dos diferentes media da região, o que explica em parte a má qualidade de uns e outros.
Não aconteceu nenhum evento que fosse introduzir alguma mudança na vida política desta terrinha: acho apenas que cresci, a minha vontade e energias esbateram-se, e faz sentido fechar este capítulo. A minha intervenção em prol do desenvolvimento de Peniche não ficará por aqui (e isto é uma ameaça!): continuarei a pautar-me pelas causas que considero merecerem ser defendidas, e continuarei a falar sempre que considere tal ter utilidade.

Sem querer fazer disto uma grande cena, não posso ir com os porcos sem fazer alguns agradecimentos:
À minha mãe e à minha madrinha por terem sido o público mais fiel aqui do menino.
Ao meu pai pela divulgação e apreciação crítica.
Ao meu irmão pela companhia nas reportagens fotográficas.
Ao António Albuquerque, ao Rui Alexandre Ramos e a todos os que partilharam o estaminé no Facebook, graças aos quais ganhei leitores, sem os quais isto não teria grande sentido.
Ao Adriano Constantino, ao Fernando Engenheiro e a todos os que me forneceram informação e ajuda na parte histórica.
Aos leitores e (ocasionais) comentadores, que espero que se habituem rapidamente a prescindir das minhas parvoíces. Para consolo de todos vós que lamentam esta irremediável perda, quero dizer-vos, Mãe e Madi, que eu não deixo nada (pelo menos de relevante) por escrever sobre os assuntos que mais me interessam em Peniche, pelo que também não se vai perder nada de especial.

Depois desta treta toda, tenho de confessar que o blog não vai acabar já já, pois tenho estado a fazer posts sobre alguns assuntos relacionados com Peniche sobre os quais já tinha recolhido informação, e vou continuar nos próximos dias. Publico esta declaração de falência não fosse parecer que eu estava com a genica toda e agora é que isto ia ficar alguma coisa que se apresentasse. Pelo contrário, o forrobodó dos próximos dias é só para que daqui a uns tempos quem aceder ao blog fique com a ideia de que isto era muito lindo e asseado (pronto, na verdade é porque tenho o blog no currículo - a partir de agora sintam-se à vontade para fazer comentários em que contem como eu vos meti a trabalhar um Fiat que caiu dos rochedos dos Remédios ou cenas do género).
Não digo que mais tarde não volte a escrever (este blog já esteve por duas vezes parado um ano), mas por agora, e isto é a melhor forma que arranjei de dizer o que sinto, perdi a pica. Daqui para a frente vou tentar viver a vida normal de um jovem de 22 anos. Pelo menos até maio, altura em que faço 23.



caldeirada repescada #10 rua antónio da conceição bento


Para mim a evolução da Rua António da Conceição Bento é um fenómeno bastante interessante, pois é exemplificativa da enorme expansão geográfica da área habitacional de Peniche no século XX. De tal forma que esta rua passou por duas completas metamorfoses desde a década de 40 até ao início do novo século.

Nesta foto da década de 40 vemos como toda esta área era preenchida por terrenos agrícolas:


Pouco depois começaram a ser construídas as primeiras moradias, que aparecem no vídeo:


Repare-se a semelhança deste tipo de urbanismo ao verificado atualmente noutras zonas periféricas da cidade, por exemplo na Estrada dos Remédios:


Trata-se, cada uma no seu tempo, de zonas suburbanas para onde vão estrear casas aqueles que saem da casa dos seus pais ou amontoaram o suficiente para construir uma casa à sua medida.

Rapidamente o aumento da população e do seu nível de vida forçou a cidade a expandir as suas fronteiras, o que levou à valorização monetária dos terrenos das redondezas. António de Jesus Lourenço captou em 1983 a transição entre uma fase e outra:


A última alteração nesta rua deu-se em 2003, altura em que foi demolida a casa que aparece à direita na última foto:


E não se arranja um vídeo da demolição com uma música fatela a passar?



Hoje em dia temos de chegar ao fundo da rua para podermos ver o que resta da fase periférica da António da Conceição Bento. No entanto, e apesar da evolução urbanística poder ser um pouco atrasada pela crise que estamos a atravessar, o mais provável é que um dia também estas casas dêem lugar a prédios que tirem mais proveito do valor do terreno onde se situam.


A que é que se deve o estranho caso da Rua António da Conceição Bento, que em 60 anos passou por dois estágios totalmente diferentes? Creio que esta mudança tão súbita está associada ao facto de até meados do século passado haver dois núcleos habitacionais bastante distintos: Peniche de Cima e Peniche de Baixo. E entre eles era terra de ninguém. À medida que as duas partes se foram expandindo, precisaram de encontrar um espaço que lhes pudesse servir a ambas das necessidades comerciais e habitacionais. E assim a Rua António da Conceição Bento passou a ser o centro da povoação em vez da periferia de duas.

originalmente publicado em 10 de abril de 2013

tudo na vida tem um fim, exceto as partilhas que têm metade





caldeirada repescada #9 disparidades

Vamos entrar num centro comercial na Rua da Sofia em Coimbra:


Nada nos chama especialmente a atenção neste pequeno centro comercial urbano...


...até que ao virar de uma esquina...


...somos surpreendidos por este teto de lages detalhadamente esculpidas.

Depois de alguma pesquisa, fico a saber que o edifício onde hoje se ergue o centro comercial era a igreja do Convento de São Domingos, cuja construção começou em 1540. Os trabalhos escultóricos foram iniciados em 1553 e são da autoria de João de Ruão. O centro comercial foi instalado em 1981 e optou-se por ser preservada a capela da foto, onde foi instalado um café (agora fechado).

Isto não é o que, pelo menos na nossa zona, costuma acontecer.
Normalmente as autarquias ou administração central cedem aos interesses dos privados e destroem tudo a eito. Quando a população mostra interesse na preservação do património, congela-se a obra e espera-se que a memória das pessoas desvaneça para deitar abaixo sem levantar muitas ondas.

Neste centro comercial, situado numa rua que tem mais monumentos por metro quadrado que outra qualquer, decidiu-se preservar este espaço, que comparado com edifícios vizinhos, nem é nada de por aí além. Isso não impediu o progresso da cidade, só a valorizou.
Eu não tenho conhecimento de como decorreu o processo de recuperação deste imóvel, mas o que aconteceu foi um ótimo compromisso entre a rentabilização de um espaço e a preservação do património. E saiu toda a gente a ganhar.

Passemos para Peniche.
Há inúmeros (maus) exemplos da relação entre o progresso e o património da cidade.
Vou buscar um do qual falei no blog há pouco tempo.
Os muros do Forte da Luz estão a precipitar-se para o chão sem que ninguém faça nada.
Um exemplo do laxismo da autarquia e munícipes nesta matéria pode ser comprovado nos comentários ao último post onde abordei este assunto.
Numa terra em que no que toca à destruição de património os atropelos à lei e ao plano diretor municipal são constantes, alguém se lembrou de que a lei existe.
Mas foi buscar a lei para quê? Exatamente para justificar a inércia e o ociosismo que prevalecem quando surge necessidade de proteger os monumentos da cidade.
É a completa perversão dos príncipios que nos devem reger.
Até porque eu assumi a minha ignorância e perguntei: ok, então como podemos dar a volta à situação?
E aí já não obtive resposta.


 O pessimista encontra sempre uma desculpa, o optimista descobre sempre uma saída.


originalmente publicado em 10 de novembro de 2012

A estrutura dos posts sobre património que escrevo aqui no blog é bastante inspirada nos artigos deste site sobre monumentos desconhecidos de Nova Iorque, e fico feliz por ver que pelo menos lá ainda vão aparecendo boas notícias.

Aconselho-vos vivamente este vídeo. Ajude-nos a manter vivo este monstro na cabeça das pessoas. Século XXI é para os fracos.

astrologia - uma ciência infalível

James Randi é um mágico que se dedica a desmistificar a atividade daqueles que querem ganhar dinheiro à conta da tendência das pessoas acreditarem em fenómenos psíquicos. Como tal, desde 1964 que Randi promete um prémio monetário (atualmente no valor de um milhão de dólares) a quem provar que tais fenómenos existem. Desde cerca de um milhar de candidatos apareceram, e Randi, com a sua sabedoria de profissão e o seu enorme sentido de abstração, tem conseguido derrubá-los um por um. Muitos desses casos estão no Youtube, mas escolhi para partilhar convosco uma experiência originalmente realizada por Bertram Forer em 1948. Todos os dias somos bombardeados com este tipo de (des)informação, pelo que nos cabe a nós, com a ajuda de investigadores como Randi, ter um sentido crítico omnipresente.



Como encher chouriços com distinção (este senhor não estará disponível para apresentar um programa da tarde?):


Hoje temos Kelly Slater a surfar com uma porta na Papôa num sítio qualquer :)



OEST via Peniche Online

A ideia de que qualquer membro da bancada PSD pode adoptar uma criança não deixa de ser constrangedora.
Isso sim, merece um par de referendos.

Bruno Nogueira

Pedindo à minha mãe para não o abrir, deixo-vos este link para um excelente artigo (atenção: não é porno -  podem abrir à vontade sem terem de meter em navegação anónima).

o desassoreamento do fosso - álbum de recordações

Desci ao arquivo e trouxe uma catrefada de fotos para recordarmos esta epopeia recente, o desassoreamento do fosso, que incluiu a construção de três pontes e da eclusa.
Até 2010, abrigavam-se na zona até à Ponte Velha diversas pequenas embarcações, atualmente no porto de pesca.




Os maiores problemas apareciam especialmente na maré baixa, altura em que o fosso ficava quase seco, até na Avenida do Mar.



Para lá da Ponte Nova o fosso não era muito mais do que uma lixeira em grande dimensão, como na altura tive oportunidade de vos mostrar:













As descargas não ajudavam:


O principio do fim começou em 2 de Maio de 2010 numa cerimónia com a presença do primeiro-ministro José Sócrates:








As obras começaram a demolição do antigo estádio do GDP:






Ao mesmo tempo, começava a remoção do entulho acumulado no leito do fosso:


 


Foram e vieram pontes:







Mais a Sul, estava a ser construída a eclusa:




Hoje podemos não dar importância à intervenção de desassoreamento no fosso, mas foi uma obra imprescindível para a salubridade desta terra. Agora que a autarquia se prepara para lançar o concurso público para a segunda fase, sabemos que o aspeto desinteressante que a zona ainda apresenta poderá mudar a médio prazo. E daqui a alguns anos talvez o fosso, que até agora ninguém soube bem para que servia, possa ser uma grande mais valia para a cidade.